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domingo, 14 de novembro de 2010

Por que ler um clássico?

Amigos (as) leitores (as)

Creio que muitos de vocês devem saber o que é um clássico da literatura universal!

É um livro que foi muito apreciado desde sua primeira publicação e, ao longo do tempo, traduzido para vários idiomas, continuou sendo lido e apreciado no mundo todo. Ultrapassou as barreiras do tempo e do espaço, tornando-se universal, isto é, uma obra consagrada por toda a humanidade. Os livros e os autores clássicos marcam a história da literatura. Além da emoção da história, a leitura de um clássico pode nos trazer muitas informações interessantes. Pense bem, nosso jeito de viver não surgiu do nada. As maneiras de pensar de cada época, a maneira de escrever dos autores, o jeito de ser das pessoas não são sempre os mesmos. Uma época influencia a outra, um país influencia o outro, e os costumes vão se transformando. Mas suas marcas não desaparecem. E essas transformações vão sempre continuar acontecendo. É assim que se faz a História, com H maiúsculo. Lendo os clássicos, podemos conhecer um pouco da nossa História, reconhecer muitas dessas maneiras de ser e de pensar que nos influenciaram e que deram origem ao nosso modo de viver e de pensar. Muitos livros escritos hoje acabarão se tornando clássicos. Mas só o passar do tempo mostra quais são as obras clássicas, aquelas que vieram para ficar, que sempre continuarão sendo lidas com interesse.

Filme da semana: "Ratatouille"



"Qualquer um pode cozinhar!"

A fantástica animação "Ratatouille" é um filme aparentemente indicado às crianças, mas que é mais um daqueles casos em que obras infantis apaixonam e têm muito a ensinar aos próprios pais das crianças, por exemplo. "Qualquer um pode cozinhar" é o lema do aclamado cozinheiro francês, Chef Gusteau, e toda a história é centrada nesta pequena frase de 4 palavrinhas.

Em um dos restaurantes mais refinados de Paris (O Gusteau's), Remy, um ratinho que adora cozinhar, sonha em se tornar um renomado chef. Contrário aos desejos da família, ele segue sua vocação e, junto com o atrapalhado Linguini, se envolve em uma hilária sequência de acontecimentos que vão deixar a cidade-luz de cabeça para baixo. Ratatouille é tão divertido que vocês irão querer repetir várias vezes.

Por favor, não deixem de prestigiar essa obra-prima da fantasia e da culinária! É um filme com muitas lições a dar. E o melhor! As lições não são para um grupo de pessoas e sim para todas!

Aos profes de plantão, é uma ótima indicação para trabalho em sala de aula, digo em Língua Portuguesa, minha área, já que é se trata de um texto audiovisual e em forma de desenho, o que atrairá certamente a atenção dos pequenos. Utilizei-o com minhas turmas de 6º e 7º ano, seguindo o seguinte processo:

1. Exibição do filme;
2. Comentários sobre o filme: alunos e orientador;
3. Produção de Comentário escrito sobre o filme (opinião);
4. Correção ortográfica/sintática/textual em sala, por meio da apresentação em quadro das palavras com grafia inadequada à norma padrão da língua e da forma adequada, sem citar o nome de ninguém que as tenha escrito!;
5. Oficina de Produção: trabalho com gêneros textuais instrucionais - o caso da "receita".

Adquira o filme da semana, "Ratatouille", através deste link: http://www.siciliano.com.br/produto/2579449/ratatouille-ra-ta-tui-dvd4/2579449?ID=BD7FBE6B7DA0B0C1329200331&FIL_ID=102

Adquira o livro ilustrado "Ratatouille", através deste link: http://www.siciliano.com.br/produto/1972862/ratatouille-em-busca-de-um-sonho/1972862?ID=BD7FBE6B7DA0B0C1329200331&FIL_ID=102

Livro da semana: "A Revolução dos Bichos", de George Orwell


Quando foi publicado, em 1945, depois de rejeitado por vários editores - entre eles o poeta T.S. Eliot -, "A revolução dos bichos" causou mal estar no establishment literário e político da época, pois foi imediatamente percebido como uma sátira feroz da ditadura stalinista, e os soviéticos ainda eram vistos como aliados na luta contra o nazifascismo. Para agravar o desconforto, os líderes do regime totalitário da Granja dos Bichos eram os porcos - o que soou como uma ofensa direta aos dirigentes russos. De fato, a analogia era escancarada. Como não identificar nos expurgos, nos assassinatos, nos exílios e na distorção da memória histórica o que estava ocorrendo na União Soviética? Como não ver Stálin no despótico Napoleão e Trotski no proscrito Bola-de-Neve?

Poucos anos depois, a situação se inverteu: com o acirramento da Guerra Fria, o Ocidente passou a usar a fábula política de George Orwell como arma ideológica anticomunista - situação incômoda para o próprio autor, que se professava socialista e havia lutado como voluntário ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola.

Hoje, passadas seis décadas de profundas transformações na face do mundo, esta pequena obra-prima resiste intacta como trabalho de fantasia em torno dos mecanismos do poder, no qual os diversos animais encarnam as fraquezas humanas que levam à corrosão dos ideais igualitários e sua transformação em tirania. 

Fundindo o estofo ético das fábulas clássicas à melhor tradição da sátira política, à maneira de Jonathan Swift, Orwell nos dá aqui uma visão perene e pessimista da política, lugar onde os homens, no mais das vezes, comportam-se como feras. A construção narrativa engenhosa, o cuidado na descrição de ambientes e situações, o humor onipresente, bem como a criação de personagens psicológica e moralmente complexos, tornam a leitura de "A revolução dos bichos" prazerosa e iluminadora mesmo para quem desconhece o contexto histórico-político que inspirou o livro. Por isso continua sendo um clássico que apaixona os mais variados tipos de leitor pelo mundo afora.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Com vocês, o espetáculo da negação!


"Não dá certo!", "Não gosto disso", "Os alunos não vão aprender nada com isso!", "É perda de tempo!", "Eu mesmo nem vou!". Chega! Escutar essas lamentações típicas de professores acomodados e preguiçosos ao extremo de vez em quando ainda vai. Agora, diariamente é dose! Conviver todos os dias com as demonstrações científico-tecnológicas dos queridos colegas de que alunos de escolas municipais e públicas estão destinados ao fracasso e que não vão aprender nada além de metade da tabuada, uma classe gramatical aqui e outra aculá e, com sorte, os pronomes do verbo Tobby é o máximo que esse povo acha que eles irão aprender, né? Pois tá certo! Digo e repito: "PROFESSORES VITIMADOS SÓ PODEM TER ALUNOS ALGOZES!"

A pérola da "prole universitária" da vez surgiu durante uma reunião pedagógica quinzenal, junto à supervisão escolar. Foram discutidos vários pontos, desde os diários de classe até à situação dos possíveis candidatos à reprovação no final do ano letivo. Falou-se também sobre a participação da escola nas festividades do 62º aniversário da cidade, onde haverá o famoso Desfile Cívico com o tema: "A África da luta, do revide e da libertação: Ipanguaçu agora conta a história de uma nação". O tema que coube à escola foi relacionado à ancestralidade dos cultos africanos. Em outras palavras, religião. A supervisora dos anos finais do EF propôs que trabalhássemos em sala os conteúdos antes mesmo de começar a pensar em alas, figurino e tal, ponto de extrema relevância no ensino dos meninos. Proposto isso, vamos aos comments:

"Olhe, eu acho tudo isso uma besteira! Uma grande perda de tempo! Pra quê esses alunos estudarem essas coisas lá do outro lado do mundo? Onde é que isso vai alterar a realidade deles? Isso tudo é só faixada! Ninguém aprende nada, pode ter certeza!"

"Vixe! Não gosto desses negócios de orixás não! O Senhor me livre, mas isso não é coisa de Deus."

"Bem, eu posso até passar na sala pros alunos, agora Deus que me livre e tire da minha cabeça qualquer lembrança disso tudo. Ó, Senhor Jesus. Isso não é coisa do Senhor não."


É, eu estou em choque! OH, MY GOD! Com professores assim, quando é que a educação brasileira vai mudar? Onde vamos com tanta discriminação, intolerância e burrice? Dentre muitas das opiniões que formei com base nos disparates aí em cima eu só posso concluir uma coisa: conhecimento vai  dar no inferno! Por isso, o convite à burrice foi lançado! E que vençam os mais fracassados. 

Todas as ótimas perspectivas que eu tinha a respeito da formação universitária foram pro beleléu tem um tempo, pois eu pensava que nas universidades as pessoas eram instruídas a pensar, a aprender a ensinar e formar cidadãos críticos e pautados no respeito às diversidades culturais, sejam elas de cunho religioso, artístico, social ou sexual. O que esses (as) professores (as) disseram é o cúmulo do absurdo. Isso é simplesmente jogar todas as fichas a serem depositadas no sonho da educação libertária no lixo! Questionei um (a) deles (as) sobre a importância de os alunos negros e pardos, principalmente, terem ideia de sua identidade cultural e do porque, por exemplo, de terem traços físicos similares como textura do cabelo, contorno facial e cor da pele, mostrando que isso era um das contribuições que a escola e, certamente, os professores deveriam dar para os alunos, tendo em vista os altos índices de racismo, preconceito e discriminação para com os afrodescendentes. Resposta... Tchanrã! "Você acha que isso vai acabar o racismo? Isso não vai ensinar nada a eles!". A partir daí, eu realmente vi que não havia motivo para continuar participando da reunião, onde a supervisora e meu colega professor de Língua Inglesa eram os únicos a pensar como eu. A forma como a religião deixa as pessoas burras e cegas é absurda. O ruim disso tudo é você ter de ser ético e seguir convenções morais em relação ao que pretende falar. Você quer falar coisas do tipo: "Olha, deixa de ser ignorante, sua pedra! Você tá fazendo o que por aqui? Se não quer dar aula, vai ser jardineiro, coveiro ou policial, mas se afaste da educação!" No entanto, o máximo que você "deve" dizer é: "Bem, discordo da sua opinião e não vejo fundamentos pedagógica e educativamente construtivos nela!" Não é pra se morder? Mas paciência um dia acaba, e aí, bem, não sei se vou manter o salto no lugar. 

O pior é que quem perde com tudo isso são quem? Os alunos! Os alunos que têm DIREITO à boa educação e formação cidadã! Os alunos que merecem RESPEITO por parte de seus educadores, sem serem tratados como água de vaso sanitário! Os alunos que DEVERIAM TER uma educação étnico-racial pautada nos princípios do respeito da diversidade, onde a cultura é algo que não deve se mostrar hierarquizado. Mas o que temos, infelizmente, são uns tantos teachers como os que deram origem à minha revolta escrita aqui no post.

Mas existe uma coisa que me faz rir dessa situação toda, pessoal. E é o seguinte: em cada uma das minhas turmas, do 6º ao 9º ano, foram criados grupos de estudo em História , Cultura e Identidade Africana e Afro-brasileira, onde os alunos do interior, carentes, menosprezados, desacreditados e humilhados estão estudando literatura de ícones da prosa fantástica africana, lendo fundamentos teóricos de estudiosos da negritude e, é claro, analisando o conceito de "identidade" do Stuart Hall. Bem, os profes continuam na deles lá, só com o velho e carcomido livro didático. Trocando em miúdos, os alunos agora continuam sendo do interior e carentes, mas além disso são valorizados, engajados, assíduos, estudiosos e sensíveis! Melhor correrem, licenciados! O pessoal da zona rural tá passando anos luz de vocês, humana, acadêmica e cognitivamente falando!


domingo, 7 de novembro de 2010

O trabalho na construção da dignidade humana - ENEM 2010



Em plena contemporaneidade, nossa sociedade ainda caminha a passos lentos no que diz respeito ao (re) conhecimento e à (re) valorização do trabalho, enquanto elemento dignificador de homens e mulheres em seus respectivos contextos situacionais sociais.O Brasil, por exemplo, é uma nação que se vangloriou durante um extenso período de sua história pelo domínio e escravidão de milhares de negros (as) africanos (as) nos trabalhos de cunho doméstico e agrícola. Porém, é possível perceber, em uma ótica mais construtivista e dignificadora do que a cerca de 30 décadas atrás, por exemplo. É interessante pensar nas mudanças que o trabalho pode exercer sobre as pessoas: mudando-as e moldando-as em detrimento do sentimento de estar sendo útil a alguém. Os homens são movidos pelas convenções mundanas, mas não poderiam viver em negação à sua natureza, aos seus desejos incessantes de procurar no ato de ensinar, cozinhar, gerenciar ou plantar, por exemplo, a dignidade de suas vidas - o "porque" de existirem. Vejamos o caso de um professor, um ofício de utilidade pública e subjetividade indescritível. Apesar de todo o cerceamento social em torno do docente, o seu trabalho é, possivelmente, o mais digno de todos, pois é ele o grande protagonista das atividades humanas, já que todo e qualquer trabalho partirá dele. Dessa forma, cabe a todos, enquanto cidadãos e cidadãs pensantes, estudar a fundo as relações trabalhistas e evolucionárias da nossa sociedade para que, então, possamos usufruir de um pensamento dignificador, a priori, em relação à construção das identidades humanas.

sábado, 6 de novembro de 2010

Todos diferentes, todos iguais.

Se entregar às coisas novas é algo encantador, mas temoroso. A primeira vez nos intriga, nos assusta, nos põe em condição de vítima de algo que nem sabemos direito o que é. É assim que me sinto ao compartilhar com vocês um poema de minha autoria que trata de um dos temas que mais defendo e debato, que é o respeito à diversidade cultural. Está ruim, provavelmente, mas espero que alguém veja com calma cada palavra que o compõe, pois apesar de não ser um Ferreira Gullar ou  um Manuel Bandeira da vida, creio que  algo seja "aproveitável" dos versos que se seguirão. A vocês, meus queridos!

TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS

Negros, amarelos, índios, vermelhos e brancos.
A diversidade está na cara, está estampada na alma
O que, então, justifica a dor da segregação?
O pesar das mortes por preconceito, racismo e discriminação?
Será a maldade intrínseca e humana de cada um
Ou a ignorância e a falta de amor de um por um?

O homem que é a obra prima de um Deus
É o mesmo homem que faz do paraíso o inferno
Que inverte os valores e as virtudes
Em detrimento dos absurdos e das disparidades
Num mundo onde poder e dinheiro valem mais
Que a vida de milhões de crianças que morrem sem paz
Não me vem a cabeça outra coisa senão
A morte súbita e o colapso das grandes nações

Negros, amarelos, índios, vermelhos e brancos.
Vejo na diversidade, a igualdade.
O que nos diferencia nos une
Cabe descobrir na bondade dos poucos
A força que unirá a muitos
Cabe acordar e ver que
na diferença não mora a hierarquia
Mas sim, a identidade
E vos digo, esta não é utopia.

Filme da semana: "Escritores da Liberdade".



"Como uma professora e 150 adolescentes usaram a escrita para mudar a si mesmos e o mundo a sua volta"

Me arrepio sempre que penso em "Escritores da Liberdade", digo o filme. Baseado no "Diário dos Escritores da Liberdade", que infelizmente só possui edições em Inglês, Alemão e Espanhol, o filme "Escritores da Liberdade" é uma das coisas que todo aluno e todo professor devem ver antes de morrer. É tudo tão genial! Alunos cheios de problemas, gangues, descaso das autoridades escolares, discriminação, violência e alguém proposto a mudar toda essa realidade. A professora Erin Gruwell chega em uma escola com estudantes hiperproblemáticos para dar aulas de Língua Inglesa e para os alunos ela não passa de uma branquela que acha que vai mudar a vida deles e entra na sala de aula todos os dias sorrindo com cara de "I'm sweet and I care about you"*.

Estimulando os alunos e alunas por meio da leitura de livros como"O diário de Anne Frank", Gruwell desperta um grupo de adolescentes fadados ao fracasso e à morte. Eles passam a entender que não é através de segregação e luta por poder que eles terão voz no mundo em que vivem. Pelo contrário, isso acabaria silenciando a todos. Aulas dinâmicas e voltadas à reflexão e ao pensamento, principalmente, moldaram as "crianças problemáticas" e formaram jovens capazes de seguir em frente e dar um "cala a boca!" naqueles, como a coordenadora da escola, que viam nos alunos brancos a salvação educacional e nos negros, latinoamericanos e asiáticos a perdição educacional.

Enquanto aluno e professor, posso dizer do quão inspirador o filme foi pra mim, pois só me deu mais vontade de continuar ensinando e tentando, mesmo diante de obstáculos e mais obstáculos, mudar o mundo e formar pessoas que amam literatura e compreendem qual a importância da educação e de suas existências, o qual só cabe a elas mesmas descobrir. Educar no Brasil requer trabalho, e trabalho árduo, e o pior é que nem todo mundo está disposto a trabalhar realmente. "Por que ajudar eles quando posso viver minha própria vida?" 

Uma ideia da Professora Gruwell para aproximar-se dos seus alunos, ganhar sua confiança e respeito e, ainda, tentar ajudá-los e entendê-los foi o diário. Ela entregou um caderno para cada um dizendo que eles deveriam escrever lá tudo sobre a vida deles: problemas na escola, na família, namoros, amigos, etc. Não daria nota por aquilo, pois "não poderia pontuar a verdade", mas se alguém quisesse que ela lesse sobre eles deveria deixar o diário em um armário, ao qual só ela teria acesso ao fim de todas aulas. É brilhante o resultado disso no filme, no livro e na vida real em si. Digo vida real, pois apresentei a proposta para uma das minhas turmas, onde percebi que os alunos viviam em conflito e tinham baixo rendimento acadêmico. Primeiro, fiquei feliz com a confiança que eles tinham em mim, pois aqueles que aderiram à proposta me trouxeram os diários rapidamente. Li todos, li tudo. Escrevi pra eles, conversamos juntos. Hoje, vejo o quão grande é a tarefa de educar, bem mais do que pensava. A turma em questão tem evoluído e percebo que os laços entre mim e eles têm se estreitado. Os diários não são "coisa de filme", são reais e eficazes. Proponho, então, que todos possam escrever e instigar seus alunos e alunas a escreverem, pois é aí que mora a liberdade.

*A expressão "I'm sweet and I care about you" significa "Eu sou doce e me importo com vocês" e foi retirada da versão original do Diário dos Escritores da Liberdade.

Compre o filme através deste link: http://www.siciliano.com.br/produto/1996863/escritores-da-liberdade-dvd4/1996863?ID=BD7FBE6B7DA0B041335250822&FIL_ID=102

Livro da semana: "O Caderno", de José Saramago.



José Saramago, um homem de opinião forte e marcante, apesar de ter deixado o nosso mundo, nos deixou uma excelente bibliografia em língua portuguesa, que trata, como nenhuma outra, as questões mundanas, os impasses do homem e a ignorância humana, por exemplo. "O Caderno" foi um de seus últimos trabalhos antes de falecer, e é resultado da junção de todas as postagens publicadas em seu blog, de setembro de 2008 a março de 2009. A obra é composta por textos curtos e diretos, que expõem nada menos que as reflexões de um ícone da literatura portuguesa e mundial sobre as questões que nos cercam e exercem influência diária em nossas vidas. Com a linguagem de sempre, seca e chocante, Saramago nos põe em "O Caderno" diante da nossa incompetência em olhar e ver o que os "grandes" vêem fazendo em nome das ditas "ética" e "democracia". Este foi o primeiro título literário que indiquei a vocês e espero que alguns, ou alguém, possam ter se dado o prazer de se deleitar sobre esta leitura. José Saramago se lê uma vez e só poderão se suceder duas coisas: amar ou odiar. Ou você entende que o mundo é sujo e as pessoas também e tudo isso precisa de mudança ou pensará que aquelas são palavras de um velho gagá que já perdeu o fio da meada do mundo literário e precisa mais é tomar umas aulas de "temas teens" com a Meyer, por exemplo. Caso alguém tenha se dado a tal prazer, por favor comente por aqui. Espero poder compartilhar mais das minhas experiências, enquanto leitor, com vocês. E fiquem de olho, pois a indicação da semana que vem já está no ar!

P.S. - Queridos seres humanos, o meu comentário sobre o livro/filme da semana sempre será feito quando este sair da estante virtual para dar espaço às novas indicações. Sugestões são sempre bem vindas, vale lembrar! :)

P.S. 2 - Vocês podem adquirir, pelo preço mais viável na internet, o livro "O Caderno", distribuído no Brasil pela Companhia das Letras, através deste link: http://www.walmart.com.br/Produto/Livros/Literatura-Estrangeira/Companhia-das-Letras/82806-O-Caderno.aspx

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ENEM


O tão comentado, discutido e estressante Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) ganhará nova edição nos dias 6 e 7 de novembro de 2010. Vejo na "prova" que é proposta aos alunos de Ensino Médio, principalmente, não uma expressão de educação e aprendizagem, mas uma declaração clara do fracasso pelo qual as relações educacionais brasileiras vêem passando. É difícil de engolir, mas baixar a cabeça e ficar comentando do quão importante, educativo e eficaz é este tal exame é dizer que ao invés de jovens pensantes e críticos, queremos robozinhos com controle remoto para fazer reais os desejos mais podres de uma sociedade corrompida. A questão é que não é com um verdadeiro "atropelo" cognitivo, isto é, algo como "tirania cerebral", representada pelas infindáveis questões objetivas de cada área do conhecimento que o nível educacional de nosso país se elevará. Há aqueles que acreditam no belo argumento de "contextualização" pregado pelos mentores do exame, mas cabe lembrar que tudo tem seu lado positivo e negativo. Nesse caso, será realmente eficaz aplicar quase 100 questões contextualizadas sobre determinados assuntos e cobrar do estudante total domínio psicológico e cognitivo em cerca de 4 horas?

Venhamos e convenhamos, nossa educação caminhou nos últimos tempos, mas ninguém é vendado (será?) a ponto de não ver que os nossos alunos de Ensino Médio, em sua maioria, não são preparados durante os 3 ou 4 anos de educação que recebem nessa etapa de suas vidas para uma avaliação de tal gabarito. É uma prova perfeita para alunos imperfeitos, digamos. Com isso, não podemos continuar achando que o ENEM, mesmo com seus aparentes benefícios, é um grande feito na história da educação brasileira. Discordo muito disso e a não ser que a organização do exame reveja sua maneira/metodologia de realmente avaliar os conhecimentos obtidos pelos alunos durante o Ensino Médio sem torturá-los, literalmente, não tenho sequer a remota vontade de mudar de opinião. Já ouviram algo do tipo "quem cala, consente!"? Pois é, enquanto os estudantes só "aceitarem" coisas sem pensar sobre elas, o negócio que chamam de que mesmo? Ah, educação! Isso aí vai estar longe dos ideais libertários.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Carta aos que não vêem





Ipanguaçu, 03 de novembro de 2010. 
Àqueles incapazes de ver além...
  
Sou um estudioso novato na Literatura, é tanto que ainda não tenho uma única linha de pesquisa definida. Aprecio o estudo mútuo e sem recortes de todas as vertentes literárias, desde as leituras clássicas que nos remetem a escritores como Machado de Assis, Eça de Queiróz e José de Alencar, até a pura nata da contemporaneidade, como José Saramago, Mia Couto, Lya Luft e Paulo Lins. A palavra escrita é algo tão belo e vasto, interpretativamente falando, que estaria cometendo um crime contra meus princípios em ler apenas “tal autor” ou “tal temática”. Gostaria de questioná-los a despeito de suas posições definitivamente acadêmicas e restritivas no que concerne aos livros da série Harry Potter, de autoria da escritora britânica J.K. Rowling.
É interessante vosso posicionamento, pois são inúmeras as pessoas que vão de encontro à tão primorosa e fantástica obra da literatura contemporânea. Não creio que os livros Harry Potter não possam ser comparados, em termos de prazer literário, à Gabriel García Marquez ou Murilo Rubião. Penso que esta afirmação goza de um preconceito implícito e mascarado no tocante às obras literárias que têm um bom rendimento de vendas ou que, simplesmente, viram filmes de bilheterias gigantescas. Pergunto-me sobre o que, segundo o senhor e outros tantos acadêmicos e professores de Línguas, deixa autores como Dostoiévski, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Walt Whitman e Herta Müller em uma dita “aura de plenitude” no campo literário, já que percebo quase que automaticamente ao ler cada um deles que seguem linhas totalmente distintas. Tomemos como exemplo Fiódor Dostoiévski e Walt Whitman, um russo e um norte-americano, um defensor da linguagem forte, direta e chocante e o outro mais intimista, subjetivo e reflexivo. O que há de semelhante, além da qualidade narrativa e os temas tratados? Qual o elo de ligação para o céu dos autores perfeitos e seus livros mais perfeitos ainda?
Em se tratando dos livros da série Harry Potter, creio que são tão belos quanto, por exemplo, “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago. Não penso que com tal afirmação eu esteja dizendo bobagens, pois pelo contrário posso defender minha opinião com argumentos simples e eficazes. No livro de Saramago que ganhou o Nobel há uma tensão clara do início ao fim da obra, que prende o leitor em seu entorno de suspense, sofrimento e retaliação reflexiva. Em Harry Potter e a Pedra Filosofal, por exemplo, no capítulo 17, “O Espelho de Ojesed”, nos deparamos com uma das metáforas mais lindas que tenho lido nos últimos anos: a dos desejos internos do homem. Não me refiro a nenhum fascínio por dinheiro ou dominação do globo, até porque no livro fica claro que cada um que olhar de fronte o espelho se verá como deseja realmente ser. Saramago certamente diz isso em “Ensaio sobre a Cegueira”, mas duvido muito que com toda a magia e destreza que Rowling faz em “A Pedra Filosofal”. A comprovação está no seguinte: leia-se um trecho de Saramago e um trecho de Rowling para uma criança e vejamos que mensagem será mais bem entendida. Ora, qual é o objetivo de falarmos uma ou mais línguas senão o de nos comunicar? Quando este objetivo é inatingível não há boa literatura que dê jeito.
Para tratar de morte, por exemplo, logo nos dois primeiros livros da série, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” e “Harry Potter e a Câmara Secreta”, a autora usa elementos simples e impactantes que persuadem o leitor quase que imediatamente. Desde a primeira história, mais especificamente no capítulo “O menino que sobreviveu”, já nos pomos de frente à situação do pobre Harry, órfão e sem saber que seus pais morreram pelas mãos de um bruxo das trevas, que por sinal, havia tentado matá-lo também. Gosto bastante da atual Literatura Marginal, mas não vejo jeito de ensinar sobre a perda das pessoas que amamos a crianças ou leitores de primeira viagem com um trechinho de “Cidade de Deus”, do Paulo Lins.
Não vejo “Harry Potter” como um simples fenômeno mercadológico e nem J.K. Rowling como uma pobre mulher que teve sorte de escrever uma história que agradasse. Ela é tão fantástica e maestral quanto a série que escreveu. Tratar o amor, o bem, a amizade, a coragem e a morte em livros aparentemente infantis é algo que me comove enquanto leitor e que ficará guardado em memória por tempos incontáveis. Os valores humanos nunca estiveram tão em alta para mim como nesses livros. É comparável a Tolkien e o “Senhor dos Anéis” e às “Crônicas de Nárnia”, de C.S. Lewis, séries tão mágicas quanto Potter que também já sofreram em suas épocas de lançamento o mesmo desentendimento de temas pelo qual o senhor passa agora em relação a Harry Potter. Pensemos juntos: a “moda” do momento é a literatura marginal e toda sua carga de denúncia social. Mas será que depois do sucesso de “Cidade de Deus” nas telonas, outros escritores não passaram a pensar mais na disponibilidade de mercado do tema do que na própria denúncia social?
Gostaria que repensassem suas posições em relação a este tipo de literatura, não só Harry Potter, mas também autores como Dan Brown, Stephenie Meyer, Rick Riordan e Nicholas Sparks. Todo livro tem uma história e todas elas merecem ser lidas. Cada livro é uma amizade, pense nisso. Sou fã inexorável de Edgar Allan Poe, Saramago, Mia Couto, Ondjaki, Orwell, Foucault, Hall e Paulo Lins. Mas não podemos nos prender a noções preconcebidas, estereotipadas e preconceituosas sobre a literatura. Dessa forma, ela não salvará, me perdoe Clarice. Assim, nos levará à morte. 

Cordialmente,

André Magri Ribeiro de Melo.

Na palavra, a comoção.

"A literatura salva", já dizia Clarice Lispector, grande entusiasta das letras. Morrerei em defesa de tal propósito, de tal missão. Ensinar as belezas e maldades, virtudes e desvirtudes e os demais paradoxos que a vida nos propõe viver é algo tão belo e motivador. E toda a magnitude do ato se renova quando se utiliza a literatura para falar disso. Sou muito jovem ainda para saber todas as técnicas, teorias e fundamentos da prática docente. Mas creio que já tenha o principal, que é amor pelo que faço. Por vezes, todas as chateações e mágoas familiares e acadêmicas são sanadas quando me ponho na companhia dos meus alunos. É, no mínimo, intrigante tal sensação, tendo em vista que minhas crianças do 6º e 7º anos do Ensino Fundamental II têm uma péssima mania de falar muito alto. 

Eu devoto muito de mim para eles, porque acredito que estas são sementes que darão belos frutos mais tarde. E a literatura é minha aliada nessa batalha, o que tenho comprovado a cada dia e cada minuto, com coisas como as que lhes apresentarei logo abaixo:


"Há pouquíssimo tempo tive a oportunidade de desfrutar de uma excelente leitura, que me fez rever todos os meus conceitos, tanto sobre o real, como também sobre o imaginário e isso só foi possível graças a uma pessoa em especial. Por isso, quero aqui deixar escrito meu muito obrigado a esse ser de luz, que mesmo eu não merecendo nem agradecendo, não se deu por vencido, mas ao contrário do que eu imaginava me deu, talvez, a maior alegria de toda a minha vida. 'As Crônicas de Nárnia' não é apenas um livro, é o caminho para a realização do meu maior sonho. [...]"



Estou em estado de choque até agora, porque nunca esperava escutar tais palavras de ninguém. "Ser de Luz". Meu Deus, quando eu li isso fiquei um momento sem poder dar continuidade ao resto do texto, de tão impactado emocionalmente que estava. Pode soar estranho para alguns tanta "comoção" de minha parte, mas não há outro jeito de lhes falar o que passei, pois indiquei o livro em sala, trabalhamos juntos, organizamos exposições para a comunidade escolar e, enfim, quando peço (aos alunos) que descrevam em poucas palavras suas experiências como leitores das crônicas de C.S. Lewis me deparo com isso. Amanhã, irei abraçar a esta aluna (sim, foi uma menina do 9º ano) e agradecê-la pelo que ela me fez com suas palavras. E, certamente, direi do quão feliz estou com ela. Não pelas palavras em relação à minha pessoa, simplesmente. Mas por já poder, tão jovem, compreender o real caminho da "salvação".

Orgulho do aprendizado

Gostaria de compartilhar com vocês que se dão ao trabalho de ler o que escrevo por aqui uma grande alegria que tive recentemente. Duas palavras me vieram à mente logo de imediato: "orgulho" e "aprendizado". Refiro-me à premiação em 1º lugar que grandes pessoas com as quais convivo desde 2008 ganharam durante a 3ª, se não me engano, Semana de Ciência e Tecnologia do IFRN/Natal-Zona Norte que ocorreu há uma semana. O trabalho exposto em forma de pôster arrebatou a atenção e curiosidade dos avaliadores e visitantes, o que só vem a justificar o talento intrínseco em cada um dos alunos do IFRN/Ipanguaçu, principalmente, quando estes, por uma ocasião do destino ou simples coincidência, estudam na badalada, conhecida e um tanto bagunceira, turma do 3º período do Curso Técnico e Integrado em Agroecologia do turno matutino. Estou, de fato, muitíssimo orgulhoso por vocês, meninos! A vitória de vocês só me mostra que o aprendizado e a educação são a porta para um mundo melhor e menos corrompido. Parabéns, Adria, Mariana, Rafael e Tereza!

ATUALIZANDO: Gostaria de registrar também meus caros e honrosos parabéns (e, certamente, desculpas pelo atraso) ao meu querido amigo Caíque e ao meu colega Leandro Ismael. Parabéns, meninos!


19 anos


Acabo de acreditar que depois dos 18, o tempo realmente passa sem nem sequer nos dar a chance de perceber isso. É interessante estar falando de como o tempo transcorre ou de como a vida é efêmera, o que requer nosso aproveitamento máximo de todas as situações, pessoas, amores, desamores, livros, músicas e filmes que venham a passar durante nosso tempo pelo chão terráqueo e humano.  Estou completando 19 anos, mas minha mente teima em me persuadir de que tenho bem mais. Estranho, não?

Obviamente, conheço uma série de jovens que estão na transição dos 18 para os 19 anos, assim como eu. Porém, não vejo quase nenhuma semelhança entre a maioria deles e eu. Eu sou do tipo que senta sempre sozinho em ônibus, não está nas festas mais badaladas da região e não é, e creio que nunca serei, nenhum ícone de adoração das garotas. A questão é que minhas verdadeiras companhias são os personagens dos livros que leio e filmes que assisto, digamos. Vivo em conversas com outros seres em outros mundos, imaginando- me, por exemplo, dentro da Escola de Magia de Bruxaria de Hogwarts ou vivendo nos tempos em que Galileu Galilei fora alvo da perseguição e da tirania da Igreja Católica. Dou muita risada do nada só por lembrar dos comportamentos nada éticos, mas muito engraçados, do Charlie ou do Alan, em "Two and a half men". É assim, e acho que não tem mais jeito. Já me entreguei a esse mundo e agora é daí para mais longe. Salvem-se, é claro, as excessões "humanas" com as quais convivo, que são, em sua maioria, meus educadores, alunos e amigos de loucura. 

São 19 anos que me soam como 29. Passaram rápido, digamos. Mas me apresentaram a coisas  e pessoas que até os olhos mais treinados duvidariam ao ver. É aquela questão: o importante não o quanto se vive, mas como se vive.